Situação 1: A Festa - Conselheiro Lafaiete, outubro de 2004. Elegemos Dr. Júlio, candidato da suposta esquerda da cidade para prefeito. Durante o processo eleitoral temíamos a vitória de um certo José Milton, candidato da suposta direita. A vitória foi comemorada por petistas locais, esquerdistas que já não mais habitavam o município e falou-se de tudo: da influência de Lula na guinada política de Lafaiete, do mercado-monstro aquecido e dominado pela "economia forte" tal como um cão feroz atiçado para a rinha. Pensou-se que a cidade, tão velha e modorrenta pudesse iniciar uma era de melhorias à la Marta Suplicy, que as mega-empresas que estavam se encaminhando rumo à zona citadina poderiam gerar empregos, etc, etc... Tudo feito na euforia tropical da festa da democracia. Lindo.
Situação 2: Operação Pasárgada - A Polícia Federal começa a rondar por ruas estreitas na madrugada de uma segunda-feira qualquer de 04/2008. Carros pretos cercam Dona M., empregada doméstica rumo ao serviço e logo em seguida Sr. P., motorista de caminhão que voltava à sua casa. Eles seriam testemunhas in loco de um grande feito investigativo. Prender o mandatário local, ocupante da sala central da Prefeitura. Os carros arrancam e ao chegarem ao destino, abrem as portas bruscamente, os homens sacam suas armas e cercam Dr. Júlio no portão de casa, saindo para trabalhar. Ele é detido. Em outra parte da cidade, o procurador municipal Wellignton Menezes e sua esposa são presos em trajes de dormir. O caminhoneiro P e a empregada doméstica M presenciam cada um uma prisão diferente. No banco da frente do carro, uma juíza federal porta uma pistola, e diz a um deles que por tais crimes cometidos contra o seu povo, um homem deveria morrer. Mas ninguém seria morto naquela manhã. A fraude no INSS de quantias elevadas e liberações ilícitas havia sido interceptada.
Situação 3: A Aliança do Coração - Belo Horizonte, nos dias de agora. Candidatos a prefeito se dividem em uma das eleições mais vergonhosas entre as capitais do país. Márcio Lacerda, indicado por dois palácios, o municipal e o da Liberdade (diga-se Mangabeiras) liderava as pesquisas até os últimos dias da campanha eleitoral. O candidato Leonardo Quintão, carismático no melhor estilo jagunço, dispara frases embaraçosas em debates, reafirma o apoio bilateral do governador do estado, Sr. A.N, cujo nome será mantido em censura. Leonardo Quintão é mais jovem, mais engraçado, mais bonito que Márcio Lacerda. E não tem medo de prometer reformas em situações como o transporte caótico que a cidade sustenta, a falta de saneamento onde nossos olhos não chegam e os rombos educacionais, diga-se de passagem, alguns dos problemas de ordinário na querida Belô. Após as horas de lei seca até para quem está a pé, revela-se o resultado do pleito: Leonardo e Márcio, esses homens de valor, estão prestes a disputar o segundo turno. Os candidatos dos partidos PCdoB, DEM e PDT foram esmagados pelo senso democrático mineiro.
Situação 4: Vou passar cerol na mão - Conselheiro Lafaiete, outubro de 2008. Eleito com maioria dos votos, o candidato José Milton comemora junto aos seus correligionários do PSDB. O segundo colocado foi o atual prefeito Dr Júlio, impune às acusações da Polícia Federal e apoiado por setores da sociedade lafaietense. Exemplo: Uma "banda de rock" chamada "Atitude" pôs uma faixa declarando sua fidelidade ao mandatário local e elogiando seus feitos em prol da "Cultura Municipal". Sabe-se que o grupo musical "independente" comprou um microonibus para suas turnês. Eleito com o apoio de muitas pessoas, José Milton é repudiado por outros por ser um empresário do setor imobiliário, dono de uma riqueza de origem duvidosa. E segundo as línguas possivelmente más, um homem em sua chapa é um conhecido pedófilo. Outros candidatos, tanto o despolitizado proletário quanto o também "analfabeto" oligarca, não tiveram chances. Um ex-prefeito das antigas e um ex-vereador brigão receberam alguns votos. Ainda menos expressivos quantitativamente.
Dentro do ônibus, numa noite quente de domingo, tendo ao meu lado uma mãe e seu adorável rapazinho de uns dois anos, vejo as tardias placas e faixas coloridas da propaganda política. Embaçadas pelo torpor e pelo vidro da janela, todas diziam olá e adeus. Os dois homens sãos que disputavam o cargo maior da política local, quem perdeu e quem ganhou, possuíam grandes placas metálicas com suas fotos, em ternos abraços com o presidente e o governador do estado. Pensando em dormir e acordar só na aula de república velha, refaço o possível contexto histórico em que vivemos.
A influência paternalista das mãos apertadas e do photoshop básico autorizado pelo partido, tão simples e objetiva em primeiro plano, é assustadora. Ao descer do carro e andar até o meu prédio, dou uma olhada nos bares do Carmo que estão cheios de gente suada gritando. Infelizmente nossos corações, tão imaturos para visões amplas (e o meu ainda agora quando se passou quase uma semana), não detectaram a impotência da festa democrática do Brasil.
Pois aqui e lá, dos cem quilômetros que separam o suposto cosmopolitismo urbano do rural, os coronéis trajam suas fardas em lã fria e linho, às vezes de boa qualidade. Aqui e lá, perpetua um favoritismo pela continuidade e quem sabe um pragmatismo na alternância dos azuis pelos vermelhos e quem mais quiser ser amarelo e apoiar ambos. Aqui e lá o sr. governador A.N figurou o pilar decisivo para as campanhas, direta e indiretamente. Diante da politização preclara dos seus atos e olhos, querida, peço que anule seu voto e que voltemos só a praticar a pequena política de cada dia. Que tem sido bem mais bonita.



