Sexta-feira, Outubro 10, 2008

Uma carta: Vota em quem?

Situação 1: A Festa - Conselheiro Lafaiete, outubro de 2004. Elegemos Dr. Júlio, candidato da suposta esquerda da cidade para prefeito. Durante o processo eleitoral temíamos a vitória de um certo José Milton, candidato da suposta direita. A vitória foi comemorada por petistas locais, esquerdistas que já não mais habitavam o município e falou-se de tudo: da influência de Lula na guinada política de Lafaiete, do mercado-monstro aquecido e dominado pela "economia forte" tal como um cão feroz atiçado para a rinha. Pensou-se que a cidade, tão velha e modorrenta pudesse iniciar uma era de melhorias à la Marta Suplicy, que as mega-empresas que estavam se encaminhando rumo à zona citadina poderiam gerar empregos, etc, etc... Tudo feito na euforia tropical da festa da democracia. Lindo.
Situação 2: Operação Pasárgada - A Polícia Federal começa a rondar por ruas estreitas na madrugada de uma segunda-feira qualquer de 04/2008. Carros pretos cercam Dona M., empregada doméstica rumo ao serviço e logo em seguida Sr. P., motorista de caminhão que voltava à sua casa. Eles seriam testemunhas in loco de um grande feito investigativo. Prender o mandatário local, ocupante da sala central da Prefeitura. Os carros arrancam e ao chegarem ao destino, abrem as portas bruscamente, os homens sacam suas armas e cercam Dr. Júlio no portão de casa, saindo para trabalhar. Ele é detido. Em outra parte da cidade, o procurador municipal Wellignton Menezes e sua esposa são presos em trajes de dormir. O caminhoneiro P e a empregada doméstica M presenciam cada um uma prisão diferente. No banco da frente do carro, uma juíza federal porta uma pistola, e diz a um deles que por tais crimes cometidos contra o seu povo, um homem deveria morrer. Mas ninguém seria morto naquela manhã. A fraude no INSS de quantias elevadas e liberações ilícitas havia sido interceptada.
Situação 3: A Aliança do Coração - Belo Horizonte, nos dias de agora. Candidatos a prefeito se dividem em uma das eleições mais vergonhosas entre as capitais do país. Márcio Lacerda, indicado por dois palácios, o municipal e o da Liberdade (diga-se Mangabeiras) liderava as pesquisas até os últimos dias da campanha eleitoral. O candidato Leonardo Quintão, carismático no melhor estilo jagunço, dispara frases embaraçosas em debates, reafirma o apoio bilateral do governador do estado, Sr. A.N, cujo nome será mantido em censura. Leonardo Quintão é mais jovem, mais engraçado, mais bonito que Márcio Lacerda. E não tem medo de prometer reformas em situações como o transporte caótico que a cidade sustenta, a falta de saneamento onde nossos olhos não chegam e os rombos educacionais, diga-se de passagem, alguns dos problemas de ordinário na querida Belô. Após as horas de lei seca até para quem está a pé, revela-se o resultado do pleito: Leonardo e Márcio, esses homens de valor, estão prestes a disputar o segundo turno. Os candidatos dos partidos PCdoB, DEM e PDT foram esmagados pelo senso democrático mineiro.
Situação 4: Vou passar cerol na mão - Conselheiro Lafaiete, outubro de 2008. Eleito com maioria dos votos, o candidato José Milton comemora junto aos seus correligionários do PSDB. O segundo colocado foi o atual prefeito Dr Júlio, impune às acusações da Polícia Federal e apoiado por setores da sociedade lafaietense. Exemplo: Uma "banda de rock" chamada "Atitude" pôs uma faixa declarando sua fidelidade ao mandatário local e elogiando seus feitos em prol da "Cultura Municipal". Sabe-se que o grupo musical "independente" comprou um microonibus para suas turnês. Eleito com o apoio de muitas pessoas, José Milton é repudiado por outros por ser um empresário do setor imobiliário, dono de uma riqueza de origem duvidosa. E segundo as línguas possivelmente más, um homem em sua chapa é um conhecido pedófilo. Outros candidatos, tanto o despolitizado proletário quanto o também "analfabeto" oligarca, não tiveram chances. Um ex-prefeito das antigas e um ex-vereador brigão receberam alguns votos. Ainda menos expressivos quantitativamente.
Dentro do ônibus, numa noite quente de domingo, tendo ao meu lado uma mãe e seu adorável rapazinho de uns dois anos, vejo as tardias placas e faixas coloridas da propaganda política. Embaçadas pelo torpor e pelo vidro da janela, todas diziam olá e adeus. Os dois homens sãos que disputavam o cargo maior da política local, quem perdeu e quem ganhou, possuíam grandes placas metálicas com suas fotos, em ternos abraços com o presidente e o governador do estado. Pensando em dormir e acordar só na aula de república velha, refaço o possível contexto histórico em que vivemos.
A influência paternalista das mãos apertadas e do photoshop básico autorizado pelo partido, tão simples e objetiva em primeiro plano, é assustadora. Ao descer do carro e andar até o meu prédio, dou uma olhada nos bares do Carmo que estão cheios de gente suada gritando. Infelizmente nossos corações, tão imaturos para visões amplas (e o meu ainda agora quando se passou quase uma semana), não detectaram a impotência da festa democrática do Brasil.
Pois aqui e lá, dos cem quilômetros que separam o suposto cosmopolitismo urbano do rural, os coronéis trajam suas fardas em lã fria e linho, às vezes de boa qualidade. Aqui e lá, perpetua um favoritismo pela continuidade e quem sabe um pragmatismo na alternância dos azuis pelos vermelhos e quem mais quiser ser amarelo e apoiar ambos. Aqui e lá o sr. governador A.N figurou o pilar decisivo para as campanhas, direta e indiretamente. Diante da politização preclara dos seus atos e olhos, querida, peço que anule seu voto e que voltemos só a praticar a pequena política de cada dia. Que tem sido bem mais bonita.

Sábado, Setembro 27, 2008

duas revistas, uma imagem e o contexto histórico. com qual você fica?

Revista Carta Capital e Revista Veja

Infelizmente uma é mais lida que a outra...

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

sobre insônia deveras, o café que ainda não bebo e telejornais. Or the earlier letter for Herr Harold from Stuttgart

São quase quatro horas. Estou acordado há pouco menos de doze. E amanhã tenho que fazer uma série de coisas, além das que eu fiz hoje e ontem... um completo farrapo.
Fazia tanto frio e solidão quando o sol saiu das nuvens da serra, que eu me sentia realizado.
"Em Lafaiete era assim"
E quando a luz começou a irradiar febrilmente pelo dia - imagine a supernova dos espelhos de edifícios ao refletir - eu poderia estar sentado, mas fiquei ali, contra o vento frio... pouco sol no rosto e frio nas costas. Daí em diante é sério demais. Mediação. Inglês. Dores de cabeça nervosas. Niilismo.
E de lá até esse momento são flashes de memória relapsa. Confundo o agora mesmo com o ontem porque, afinal... é disso mesmo que falo.
Olha, me esforcei bastante para beber café. Não deu ainda. Já sou há anos um admirador efusivo do cheiro. Depois passei a freqüentar os genéricos, com outros condimentos que aliviam o acre. Café é charmoso tanto quanto cigarros em filmes, bocas e mãos de homens e mulheres fatais, e também não é para mim. Geração Toddy demais. "Prefiro Toddy ao tédio", a minha favorita das camisetas do Cazuza.
E telejornais... coisa antiga. Assisti às pequenas operações da OTAN no Cáucaso dos anos 90. Assisti ao real chegando e o dólar sendo subestimado. Agora vejo o dólar ser subestimado de verdade, in natura, organicamente. Ê delícia.
Então Herr Harold... se há mesmo um céu de pássaros above nossas entranhas comprimidas em azulejos (dos banheiros que são as intimidades da vida) e carnes e convites e desejos; que seja o céu dos insones, dos que envelhecerão cedo e que nunca se deixam dormir vagamente, adorando a fraqueza que é o torpor.
O céu dos insones deve ser ao lado do céu dos escritores.
E os escritores ganharão asas, já foi dito.

Quinta-feira, Setembro 25, 2008

Lista: Arranca-rabo

Quais são os livros cujo final são os mais arrebatadores? O que faz de um livro uma peça interessante de processos e reflexões e não apenas uma sucessão de surpresas? Fiz uma lista enquanto a van cortava a estrada na manhã branca de hoje. E olha só o que saiu:
Capitães de Areia - Jorge Amado
Mate-me por favor - Larry McNeil e Gilliam McCain
Jogando com a Morte - Larry Collins
Werther - Goethe
Germinal - Émile Zola
Tuareg - Alberto Vázquez-Figueroa
O Encontro Marcado - Fernando Sabino
Notas de um Velho Safado - Charles Bukowski
Dom Casmurro - Machado de Assis
Lucíola - José de Alencar
O Deserto dos Tártaros - Dino Buzzati
Demian - Hermann Hesse
A Educação Sentimental - Gustave Flaubert
Agosto - Rubem Fonseca
Vidas Secas - Graciliano Ramos
Caminhos Cruzados - Erico Verissimo
Nota-se que são alguns dos livros que mais citei na vida, que já falei num dos quatro blogs que tive e que dou de presente com alguma freqüência. Mas porque coloquei Bukowski com Hermann Hesse e Machado de Assis com um romance tão pulp como Jogando com a Morte? Ah! Trata-se de uma lista supra egocêntrica, um exercício de memória. Não coloquei, pois, "O Velho e o Mar", do Hemingway. "Notas de um velho safado" é uma compilação de ótimos contos do Bukowski, mas seguem alguma cronologia e linearidade e para quem soube ler, deixa a cereja para o final. "Mate-me Por favor" é a história oral do punk; o que isso tem de tão assustador? Eu lembro de ter mandado uma mensagem de celular ao Alexei Fausto com lágrimas nos olhos, apenas para agradecer pelo livro que me fora por ele emprestado. "Caminhos Cruzados", "Tuareg", "Agosto" e outros bastiões devem apenas ser lidos.

Quinta-feira, Setembro 18, 2008

"mau-indicação" - a coluna de recomendações

Astral Weeks, de Van Morrison. Devo essa ao livro "Reações Psicóticas" do Lester Bangs. Hã?! Van Morrison? Parente daquele outro? Lester Bangs?
Astral Weeks foi lançado em 1968, ano do "não acabou" para uns e do "que fizeram de nós" para outros (Zuenir Ventura? isso aí). As músicas podem ser consideradas irish folk e R&B, mas tire suas próprias conclusões. É poético e muito bem feito. Pra variar já virou cult entre algumas pessoas, então corra e escute antes que você seja passado para trás!
O disco contém lindezas como "Cyprus Avenue", "Beside You" e "Madame George". Todas acompanhadas de uma banda ótima e da voz grave do Van Morrison. E esse? Quem ser?
Van Morrison nasceu em Belfast, Irlanda do Norte. Ímpar ao universo conflituoso em que foi concebido, ainda jovem manifestou interesse enorme por música. Passando por algumas bandas na juventude, Van destacou-se com o Them, banda com a qual foi autor do hit "Gloria" (regravada por vários artistas, incluindo Jimi Hendrix, The Doors, ACDC e Patti Smith).
Por ser um sujeito genial beirando insuportável (conhecem Bob Dylan?), Van Morrison partiu para a carreira solo, onde também obteve bons resultados.
Lester Bangs, jornalista musical, morto nos anos 1980. Ainda referência para alguns críticos e artistas. É considerado um dos melhores escritores americanos, mesmo tendo escrito apenas resenhas de discos e entrevistas com músicos. No filme Quase Famosos (de Cameron Crowe) Lester é interpretado por Phillip Seymour-Hoffman. Prometo transcrever parte da crítica desse disco para o caderno.

Para ouvir o disco inteiro?

Ecletismo, Diversidade, formato digital, iPod.
Nesses tempos digitais em que nos inserimos mais e mais (ou seria ao contrário?) intensamente, há de se anotar algumas observações: estamos perdendo a sutil idéia de que um disco é uma obra "fechada". Talvez fosse bom repassar alguns pontos por ora, apenas para deixar bem claro: em um momento da "história da música popular" os músicos e artistas passaram a se questionar e e elaborar um pensamento mais desenvolvido a cerca do formato em que sua obra era divulgada, vendida e escutada. Significa ao todo uma aproximação com a música clássica pela forma, não esquecendo que essa ligação musical sempre existiu. Podemos dizer que ocorreu um pensamento artístico mais apurado sobre o disco, essa reprodução das obras de arte, que também vinculamos ao cinema (industrial, comercial, popular).
Então que em 1955, Frank Sinatra gravou In the Wee Small Hours, uma bolacha com canções melancólicas, sempre próximas das horas solitárias da noite. Talvez tratasse de sua separação com Ava Gardner - fato que se consumou oficialmente apenas em 1957 - mas na verdade era um começo. O disco inaugurava o pensamento conceitual na música. Era para ser escutado como um todo.
Nesses quase 50 anos de turbulências estilísticas e egocêntricas do universo artístico, podemos apontar diversos outros títulos que permeiam esse conceito. E que também se apropriam para criticar; como a frase não-célebre "a moda está fora de moda", dita por Ronnie Von em seu disco "conceitual". Isso em 1968, 15 anos após In The Wee Small Hours e apenas um de Sgt. Peppers (talvez o disco mais famoso a funcionar nesse padrão).
Dos anos 1960 recebemos a Ópera-Rock, de origem um pouco discutida, mas registrada como criação do The Who, que se tornou especialista no assunto. Logo até culminar nas viagens progressivas dos anos 1970, Pink Floyd, Yes e Jethro Tull lideram o imaginário popular até os dias de hoje. Impressiona a desnecessidade de alguns arranjos; o que era rock virou coisa séria. E bandas como essas, apesar da enorme qualidade técnica, exacerbavam em moralismos, o que não precisa ser discutido agora.
O resto da trajetória é dispensável. Voltemos.
iPod pode parecer um atentado contra esses discos. E quem divide esses gigas com outros tipos de música possivelmente estampam alvos de críticas de ortodoxos estudiosos e pilantras. Quem diria, eu que posso ser considerado um ser chato na música (vamos lá, eu não pago uma de bacana), defendo livremente o shuffle! Infelizmente não é a época de dar murro em ponta de faca e desconsiderar o formato digital, o p2p, os sites hospedeiros, até as coletâneas caça-níquel que algumas gravadoras fazem (pode não parecer, mas alguns músicos ficam desesperados com isso) e também a gratuidade da coisa.
"Shuffle" (que também nomeou um modelo de iPod) é o ato de oscilar entre as músicas do seu mp3 player. É também um termo usado por músicos, que pode ser traduzido com "a levada da música", andamento.
E por fim, "Shuffle" não é a edição das nossas vidas; pequena como o aparelho que portamos e com diferencial em um campo muito grande. Assistir Jornal Nacional é sim praticar essa droga, afinal Schroder seleciona notícias e verbetes com o escrúpulo seminal de um debate entre Collor e Lula - talvez a maior prova de que os editores da Rede Globo movimentam mais vidas do que aquelas do BBB - e não deixa passar qualquer coisa. "Selecionar o repertório" deixou de ser uma tarefa de profissionais para então proporcionar a cada dia um oficio mundano de face dupla, que gera boas surpresas ou distorções em sua imagem. É como Michael Stipe disse a Thom Yorke: A música deixou de ser arte para se tornar papel de parede na vida das pessoas. Eu repito essa frase muitas vezes. Muitas.
Ronnie Von - 1968: o disco re-lançado e celebrado por meus amigos e eu no ano passado foi um desastre comercial. Mas apresenta bastante qualidade e hoje virou obra cult, incompreendida e cheia de outros rótulos dúbios.
Schroder, Carlos Henrique: Diretor da Central Globo de Jornalismo.
Michael Stipe: Vocalista do R.E.M
Thom Yorke: Vocalista do Radiohead